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Wednesday, February 20, 2013

12 Horas Internacionais



Quem diria, hoje o Autódromo de Goiânia é palco de bailes funk, quase uma favela. Justo a pista que julgava ter vocação para sediar provas internacionais (a prevista corrida de estreia, em 1973, que nunca foi realizada, estava no calendário da FIA como prova internacional para carros esporte). Eventualmente, sediou corridas do campeonato mundial de motos, sem contar provas da SUDAM F3, mas os dias de glória internacional nunca vieram.

Mas a primeira prova internacional do autódromo, pelo menos com gostinho internacional, foi a 12 Horas de Goiânia de 1975. E pelas minhas contas, foi a única corrida válida para um campeonato brasileiro que contou com participação estrangeira nos anos 70.

Não que houvesse muita gente de fora. De fato, quatro argentinos participaram da prova. Com um Maverick da Tenenge, Juan Maria Traverso, que eventualmente correu na F2 europeia, e Jorge Recalde. Num Opala da Itacolomy, Oscar "Cacho" Fangio e Fernando Ferrari.

Apesar da simpática presença dos pilotos estrangeiros, tiveram pouco impacto nos resultados. O Maveco abandonou com 60 voltas, e o Opala, com 68.

Apesar disso, a corrida, ganha por Paulo Gomes e José Carlos Pace, com Maverick da Equipe Mercantil Finasa-Motorcraft, teve lá suas efemérides.

A pole position foi obtida por Luis Estevão, com Maverick da Retífica Brasiliense. Sim, esse mesmo Luis Estevão, ex-senador, cassado, envolvido na questão Lalau (Luis, que já era riquíssimo muito antes de se tornar político e com certeza não precisa de dinheiro, alega inocência) e que quer voltar à política. Na época Estevão corria, e não era um mau piloto. Só que a pole foi contestada. Na prova, ele e seu companheiro Marco Emílio Pires correram entre os primeiros, mas os dois pilotos de Brasília só completaaram 265 voltas. Os melhores pilotos do Planalto Central nestas 12 Horas de Goiânia foram Alencar Junior e Roberto Jabur, com um Opala.

O carro de Estevão. Ah, a exuberância da juventude...

Outra coisa curiosa foi a presença de uma equipe do Espírito Santo, local não muito conhecido pela sua contribuição ao automobilismo. E não fizeram feio. A duppla Coser e Schuch correu com um Passat, e chegou em terceiro na classe.

O primeiro abandono foi do único Alfa Romeo 2300 da corrida, que abandonou com 4 voltas. Só dois carros correram na classe B (o outro um Dodge 1800), assim os carros concorreram na Classe C.

Resultado
27 de julho
Brasileiro de Divisao 1
1. Paulo Gomes/Jose Carlos Pace, Maverick, 351 (1o. classe C)
2. A. Bragantini/J.R. Catapani, Maverick, 348
3. F. Crespi/S. Mattos, Maverick, 346
4. Edgard Mello Filho/Bob Sharp, Maverick, 345
5. Alencar Junior/R. Jabur, Opala, 341
6. P.C. Lopes/W. Lomozi, Maverick, 337
7. Cairo Fontes/Eduardo Cardoso, Maverick, 337
8. Norman Casari/Mauro Sa Mota/Reginaldo Bufaical, Maverick, 336
9. Francisco Artigos/Eduardo Doria, Passat, 329 (1o. classe A)
10. W. Siqueira/F. Saknezian, Passat, 325
11. E. Cozer/Regis Schuch, Passat, 323
12.S. Boeck/Jose Andrade, Passat, 323
13.A. Manuel Nunes/R. Gibran, Maverick, 322
14. L. Paternostro/A. Sipos, Passat, 321
15. J.C.Palhares/E. Monta, Passat, 320
16. P. Iglesias/E. Pederneiras, Passat, 318
17. P. Guaraciaba/C. Braz, Maverick, 317
18. Romulo Gama/A. Buzaid Jr. Passat, 316
19. C. Almeida/P. Alonso, Passat, 314
20. M. Horbilon/L. Calil, Passat, 313
21. Silvio Poli/F. Gioia, Opala, 313
22. M. Ferraris/C. Amaral, Passat, 312
23. O. Carvalhaes/Alexandre negrao, Passat, 312
24. Ivo Mendes/L. Cavalcanti, Passat, 311
25. F. Sotto Maior/M. Veludo, Dodge 1800, 307
26. R. Savio/R. Campello, Opala, 274
27. C. Marques/Sandoval Oliveira, Passat, 273
28. M. E. Pires/L. Estevao, Maverick, 265
29. V. Consule/S. Carvalho, Opala, 262
NC
R. Dal Pont/L. Landi, Maverick
A. Rodrigues/S. Drugovich, Passat
J. Romano/F. Gondim/R. Campello, Opala
J. Bucski/C. Andrade, Maverick
E. Mesquita Jr./Afranio Filho, Passat
L. Santos/Antonio Martins Filho, Maverick
Aloisio Andrade Filho/Ricardo Lenz, Maverick,
Oscar Cacho Fangio/Fernando Ferrari/Opala
Julio Tedesco/Marcos Tedesco, Opala
J. Traverso/Jorge Recalde, Maverick 
Celso Frare/Carlos Eduardo Andrade, Opala
Newton Pereira/Jose Moraes, Maverick 
R. Consort/J. Consort, Alfa Romeo 2300
MV Aloisio Andrade Filho, 1m58.04s

Tuesday, February 12, 2013

A (QUASE) ÚLTIMA VITÓRIA DE CAMILO CHRISTÓFARO



Por Carlos de Paula

Camilo Christófaro foi um dos mais populares pilotos brasileiros dos anos 50 e 60. Sobrinho de Chico Landi e mecânico por profissão, não podia dar outra: Camilo acabou virando piloto, obtendo muito sucesso em Interlagos com uma grande variedade de carros, desde FNMs JK até ex Maseratis de F-1 equipadas com motor Corvette, os temíveis Mecânica Continental. Sua carretera número 18 (na última versão) é um dos carros mais lembrados e amados do automobilismo brasileiro, certamente a mais popular carretera,correndo até 1971.

No começo dos anos 70, o automobilismo nacional mudara e já não havia lugar para as carreteras. A 18 tornara-se anacrônica, além de proibida, visto que era equipada com motor Chevrolet Corvette americano. Assim que em 72 Camilo adquiriu um protótipo Fúria, equipando-o com motor Chrysler, correndo com esse carro na Divisão 4 em 1972 73. Nesse último ano lançara-se a Divisão 1, com provas de longa duração e carros com reduzido preparo, e também foi lançado o Ford Maverick V-8. Grande amante dos V-8, Camilo logo se entusiasmou com o modelo e a categoria. Nos anos seguintes, participaria de diversas corridas de Divisão 1 e 3, com Mavericks preparados pela Escuderia Lobo.

Em 1975 a Divisão 1 estava em franca expansão. As 25 Horas de Interlagos não foram realizadas naquele ano, decidindo-se realizar uma prova mais curta, as 500 Milhas de Interlagos. Como as 25 Horas, a prova também fora organizada pelo Avallone Motor Clube, de Antonio Carlos Avallone, e seria realizada na pista completa de Interlagos. Nessa época, a maioria das provas de Interlagos contava com a experiente equipe Sget’s de cronometragem, mas nessa prova estrearia uma nova equipe, a Racing Crono.
 
A Equipe Tecnomotor teve forte presença na Divisão 1 em 1975. Aqui Beto Monteiro, em Brasilia
Entretanto, a prova foi vítima de uma série de confusões, algumas inevitáveis, como a climática. Apesar de 71 carros inscritos, a principal equipe da Divisão 1, a punida Mercantil-Finasa, na qual corria José Carlos Pace, não participaria da corrida embora contasse com a autorização da CBA. Depois, choveu nos treinos de classificação. A maioria dos carros foi para a pista molhada, marcando tempos altíssimos, mas quase no final dos treinos parara de chover e a pista começava a secar. O esperto piloto paranaense Edson Graczyk ficara com seu Opala da equipe Tecnomotor parado nos boxes enquanto chovia. Quando parou de chover, e a pista começou a secar, Graczyk prontamente foi para a pista e marcou a pole position em 4’10”1, com certa facilidade. Em segundo ficou outro Opala de Sergio Carvalho, que não era habituée das primeiras posições, e em terceiro Camilo Christófaro, o primeiro com Maverick. O primeiro Passat, de Alberto Ferreira e Rafael da Luz, marcara o 9° tempo, na frente de diversos carros da Classe C, com 4’15”08, dando uma idéia da aparência inusitada do grid.
 
O Maverick 18 dos Camilos 
Cabe lembrar que nessa época os Maverick simplesmente acabavam com os Opalas nas provas de Divisão 1. A única grande vitória do Opala fora nas 25 Horas de 1974, e os produtos da Ford ganharam todas as outras provas. Assim que a pole de um Opala fez bastante surpresa, e por que não, até mesmo o 3° de Camilo surpreendeu. Este correria em parceira com seu filho Camilo Christófaro Júnior, certamente realizando um sonho ao largar em tão boa posição, junto com o filho. Todo pai cujos filhos correm certamente sonham em correr em dupla, e porque não, ganhar corridas com os rebentos. Os casos são inúmeros não só no automobilismo brasileiro, como internacional.

As 500 Milhas foram transmitidas na TV e a Itacolomy, concessionária Chevrolet, estava oferecendo prêmios para os primeiros, segundos e terceiros colocados com carros da marca, tanto na classe C (Opala) como na A (Chevette). O automobilismo brasileiro dava sinais de evolução nessa época, apesar das pisadas na bola, como veremos a seguir.

No domingo acabou não chovendo, e Camilo Christófaro fez a melhor largada, diga-se de passagem dentro do horário programado, pulando diretamente para a primeira posição. Não só Camilo largou melhor, como começou a abrir distância do segundo colocado Graczyk. Era o Camilo de antigamente, que após 40 minutos de prova, já tinha 23 segundos de diferença sobre o segundo colocado, Arthur Bragantini. Com uma hora de prova, Camilo entrou nos boxes para reabastecer e passar a direção do Maverick número 18 a seu filho, que logo voltou à ponta. Júnior não só manteve a primeira posição, como expandia a diferença em relação aos segundos colocados. Parecia certo que a dupla de Camilos ganharia a prova. Infelizmente, o destino foi outro.
 
Mavericks brigando
Posteriormente, Camilo pai confessou, em uma versão, que muito lhe emocionou a possibilidade de ganhar uma prova em dupla com o filho, e acabou fazendo uma rara burrada. Em outra explicação, disse que foi brincar com Toco, seu amigo de muitos anos, fazendo alguns sinais. Distraiu-se e acabou batendo. Apesar de ter ganho inúmeras disputas em duas décadas, inclusive as Mil Milhas Brasileiras de 1966, Camilo nunca ganhara uma prova com o filho, e há algum tempo estava em jejum de vitórias importantes. Seja a emoção ou brincadeira que lhe fez perder a concentração na volta 59, o sonho dos Camilos terminou em abandono na Curva do Sul. Disse a um repórter “Pode escrever aí que eu sou um salame. Dei uma bobeada. Há vinte anos que corro e hoje aprendi mais uma”. Infelizmente, nunca mais Camilo teve a mesma oportunidade de ser tão competitivo em uma corrida.

Após o abandono de Camilo, a tal equipe Racing Crono simplesmente perdeu o controle da corrida. Na realidade, a única certeza que tinham era de que os Camilos lideravam, e quando estes abandonaram, nem sabiam quem era o líder, tampouco quem ocupava as outras posições. Passaram então a proibir a entrada dos jornalistas na torre de cronometragem, para encobrir sua inépcia. A imprensa, dando cobertura televisiva, não sabia o que dizer ao público, e passou a recorrer aos mapas de corrida extra-oficiais, preparados por algumas equipes, como Chico Landi, Itacolomy, Sonnervig-Vicsa e Manah. Estes apontavam Aloysio/Cesar em primeiro, seguidos de Campello, Bragantini, Graczyk e Marinho Amaral. O clima foi ficando pesado, e o organizador Antonio Carlos Avallone começou a sofrer todos os tipos de pressão, dentre outros do presidente da CBA, Charles Naccache, que estava presente na pista. Após a divulgação dos resultados oficiais, depois de 6 horas de corrida, ocorreu o inevitável: uma enxurrada de protestos. Reynaldo Campello/Marivaldo Fernandes, da Itacolomy, achavam que eram os vencedores, mas Aloysio/Cesar e Graczyk/Carpes também achavam. Resultado: os mapas de corrida tiveram de ser completamente revisados até as 2 horas da manhã, e a divulgação oficial dos vencedores ocorreu  longos 15 dias depois: Aloysio Andrade Filho e Ricardo Lenz Cesar, com Maverick na classe C, e Francisco Artigas/Eduardo Dória com Passat na Classe A. Edson Graczyk e Oswaldo Carpes foram o Opala melhor colocado, em 4° na geral, mas acabaram desclassificados por estarem abaixo do peso. Os Opalas da Itacolomy também acabaram desclassificados, e no final foram Júlio e Marcos Tedesco que levaram os Cr$5.000 da Itacolomy. A desclassificação de Graczyk/Carpes e Campello/Marivaldo se deu a um erro da própria GM, que não havia atualizado o peso dos carros na homologação junto à CBA. Como os Opala estavam saindo da fábrica menos pesados, por usarem componentes mais leves, e o peso indicado na homologação era o antigo, os comissários acabaram desclassificando esses Opalas.

Os mais supersticiosos diriam que foi praga do Camilo!

Resultado Oficial Final das 500 Milhas de Interlagos de 1975:
Classe C e Geral
1. Aloysio Andrade Filho/Ricardo Lenz Cesar – Maverick n° 28 – 92 voltas
2. Artur Bragantini/Tite Catapani – Maverick n° 26 – 92 voltas
3. Marinho Amaral/Manoel Jesus Ferreira – Maverick n° 29 – 92 voltas
4. Júlio Tedesco/Marcos Tedesco – Opala n° 3 – 91 voltas
5. Celso Frare/Carlos Andrade – Opala n° 5 - 91 voltas

Classe A
1. Francisco Artigas/Eduardo Doria – Passat (10° na geral)
2. Alberto Ferreira/Rafael da Luz – Passat
3. Otto Carvalhaes/Alexandre Negrão – Passat
4. Carlos Amaral/Glen Henrique – Passat
5. Charles Marzanasco/Charles Marzanasco Filho - Passat